terça-feira, 25 de março de 2008

...você que completa dezoito anos, aliste-se já...

o silêncio dos cumes cobertos de neve, a imensidão branca e muda e fria, o medo da altura no alto de montes formados de flocos, de grãos, de rochas... quando ganhei a base no surf passei a acreditar que o skate poderia também ser familiar.. eu não estava errado, a única diferença é que quando o corpo cai ele quica ao invés de mergulhar (isso não é engraçado...)... ando pouco de skate hoje, já estirei um músculo do braço e fiquei três meses sem surfar... então o skate ficou em segundo plano...
lógica por lógica, a mesma que me levou a acreditar na habilidade do skate, me levou também a acreditar na habilidade do snowboard... ano passado, após uma transformação grande, em que fui demitido de dois empregos ao mesmo tempo, depois de dez anos de trabalho duro, me vi no direito de realizar o sonho de esquiar... fui para bariloche, argentina... comprometido a esquiar...

não vou falar da viagem em si, como sempre as vivo de forma pouco planejada e no curso dos ventos e das pessoas que se batem comigo... meu compromisso de esquiar era a única meta concreta... cheguei em bariloche com milena, e a acompanhei no esqui... ela se desenvolveu, eu aprendi fácil, mas nem me concentrava direito... eu invejava a velocidade e a mobilidade dos snowboarders... tinha medo de não conseguir... não agüentei... no dia seguinte aula de snowboard...

a experiência de esquiar em um snowboard exige alguns esclarecimentos...

primeiro, não se esquia com a prancha deslizando na neve por completo, como se faz com a prancha de surf... a prancha de snow é feita de material duro e flexível, o kevlar, difícil de quebrar, e nas beiradas da prancha existe uma fina camada de aço, como uma lâmina, que raspa a neve; para controlar a prancha é necessário se apoiar nas beiradas da prancha, sob as lâminas; pois todo o resto desliza muito.
a prancha sempre imprime alta velocidade, e no snow ela depende de três fatores: a inclinação da montanha, a posição do snow, e a nossa velha conhecida das aulas de física, a gravidade; quanto a posição do snow quem controla é você, se ele deslizar muito você cava a montanha com a beirada de aço e pára a prancha, é quase instantâneo e forma uma pequena avalanche de neve abaixo de você, se você errar e estiver muito inclinado para frente ou para trás nestas paradas bruscas será inevitavelmente lançado com muito força para frente ou para trás como uma bola de neve; quanto a inclinação da montanha, vale ser cuidadoso no início enquanto estamos aprendendo, porque também dá pra controlar um pouco a velocidade do snow, pouca inclinação permite o snow ir ganhando velocidade devagar e a gente ir aumentando na medida da nossa capacidade de controlar a prancha, já quando se trata de muita inclinação ai a conversa é outra...; é que não existe montanha toda bem formadinha, com uma descida uniforme, ela é feita de pequenos buracos, e quando a gente fala em inclinação, quem imprime velocidade é a gravidade, enfim, é inevitável deslizar uma montanha e em determinados momentos atingir uma velocidade que beira a queda livre; agora imagine que sem fazer esforço nenhum voce sai de um estagio zero de velocidade e atinge uma aceleração absurda com a capacidade de controlar a prancha e parar quando quer?
a prancha é grande, costuma-se medir pela distância entre os pés e o nariz do usuário; as quedas são doloridas e complicadas, pois a prancha não descola dos pés, ela é fortemente presa, por botas com garras de aço, se você cai suas pernas viram uma hélice girando e deslizando e seu corpo não pará enquanto a inclinação não cessar, ou a prancha enfiar uma das pontas na neve; as quedas podem ocorrer em dois tipos de chão, na neve em flocos, fofa como um colchão, é muito divertido, mas mesmo assim é preciso cuidado, pois a neve as vezes esconde pedaços de rocha, ou na neve de pista, aquela que os outros esquiadores passaram antes de você e alisaram, e que deixa de ser fofa e vai ganhando a consistência dura do gelo; numa estação de esqui você pode escolher as pistas ou fora de pistas (http://www.catedralaltapatagonia.com/images/mapapistas_big.jpg): nas pistas não existem rochas e arvores, mas o chão é de gelo, fora de pista a neve é fofa mas as árvores e as rochas estão em toda parte; sugestão: aprenda nas pistas e quando controlar bem o snow siga para fora das pistas;

orientação para as quedas, sempre cair com os braços dobrados metendo com força os cotovelos na neve ou no gelo; evitar cair de costas pois estas quedas costumam forçar a coluna e costelas; não deixe as pernas girarem nas quedas, procure meter com força o snow na neve para pará-lo, se você deixar girar a própria sorte e estiver em alta velocidade irá quebrar a perna inevitavelmente, este é o acidente mais comum;


no mais... comecei numa descidinha light, pegando o swing da prancha, pois a base muda, você trabalha com a parte externa dos pés e com os tornozelos e joelhos... e pra aprender é preciso ir trocando de base, o que é difícil, e prepare-se: a gente cai muito e se machuca bastante, pois o gelo das pistas é duro como o chão; e como a prancha desliza bastante, já dá pra sentir um gostinho da velocidade mesmo numa descidinha simples dessa...


me empolguei e já na tarde do mesmo dia que aprendi subi para descer pela primeira vez a montanha... você escolhe as pistas através de bandeiras de cores diferentes que indicam o grau de inclinação das mesmas... sinta só o nível da gradação... verde, azul, vermelho e preto... inicial, intermediário, avançado, experts... desci em pistas iniciais e intermediárias... no decorrer da montanha é bem comum ver pequenas manchas de sangue, que a brancura da neve deflagra... é muito legal ver filas de vinte, trinta crianças, com até dez anos, muitos de cinco, seis anos, descendo com professores em fila, muitas vezes em alta velocidade... todos estão sempre muito realizados e tranqüilos, imagine quando duas cabeças se batem na montanha descendo em velocidade? eu atropelei uma menina... atropelos são freqüentes... ser atropelado também não é legal, evite os nativos, regra geral...


e esta brincadeira com neve, montanha, o silêncio, o azul intenso do céu, o sol tão próximo e ardente, e a satisfação estampada no rosto de todos, a alegria freqüente de ver alguém emocionado pelo contato com a neve... e percebe-se que, se você está disposto a cair muito, os machucados são poucos e aprende-se razoavelmente fácil, e em pouco tempo já se tem o controle e a coragem para atingir altas velocidades... nem pensamos em machucados e cosnequencias... e depois disso tudo detonar duas garrafas de vinho tinto chileno por cinco dólares cada, comendo um bom bife de choriza com papas fritas por 5 dolares...

este ano vou para duas outras estações de esqui, na argentina que é mais barato... las leñas e penitentes... já tenho toda planilha de custos, detalhada, passo aos interessados...

segunda-feira, 24 de março de 2008

das origens e dos fatos... tariq ali, persépolis e a palestina...

assim comecei este texto, naquele dia em que assisti 24 horas e vi um terrorista muçulmano com a minha cara... sim, eu tenho traços turcos, árabes, e após algumas pesquisas familiares, estamos todos convencidos, que ainda que distantes, temos um pé na mesquita e um olho no alcorão... e eu torcendo para jack bauer...

enfim, de jack bauer para tariq ali... “confronto de fundamentalismos”, decidi conhecer a religião islâmica e a história dos países que compõem o islã... buscar um pouco de mim mesmo naqueles relatos... tariq consegue com maestria falar com objetividade sobre sua vida que é a vida daqueles povos e nações... é impressionante a história da caxemira, região de conflito entre a Índia e o Paquistão, ele estudou numa faculdade lá e a descreve como “situada no local das paisagens mais lindas do planeta”, fica na região do himalaia... imagine estar lendo sobre a trajetória do paquistão e sobre o poder e a ditadura subserviente aos eua dos bhuto e durante a leitura do livro receber a notícia que benazhir bhuto morrera num atentado (http://br.truveo.com/Bush-diz-que-morte-de-Bhutto-foi-ato-covarde/id/107287626)...
e por último... depois de conhecer tudo sobre o império persa e a antiga persepólis, o atual Irã, se deparar com a obra magistral de mariane satrapi e vincent paronnaud, Persépolis... a história desta transformação de uma das nações mais cultas e promissoras do planeta em berço do fundamentalismo islâmico, do fanatismo anti-imperialista, um amontoado de escombros do pós guerra irã-iraque... uma nação que apodrece aos poucos, bombardeada pelo iraque, comprada pelos americanos, violentada por seus próprios homens, maridos, filhos... uma nação de mulheres mudas...
e ao ir no cinema assistir este desenho belíssimo, me lembrei de uma revista em quadrinhos que já devia ter alguns meses esquecida em minha estante, comprada na mesma época que “confronto de fundamentalismos”... “palestina, uma nação ocupada” de joe sacco, quadrinhos políticos que reportam a situação da palestina e de israel nos últimos 80 anos, da declaração de balfour a instalação dos últimos assentamentos judeus em território árabe, do consentimento dos impérios americanos e britânicos com todas estas invasões ao interesse de sharon, shamir de continuar expandindo, dominando, expulsando, humilhando os palestinos... “uma terra sem povo para um povo sem terra”...
leiam... são todas obras fundamentais e que fazem parte das transformações do mundo... serve para entendê-las... sobreviver a elas... e quem sabe conhecer um pouco mais de nós mesmos...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Mas o Muzenza não vai mais chorar...

Eu, eu peço a Deus que lê benza, Muzenza...
Que toda luz lê ascenda,Muzenza...
Que ascenda o chão do terreiro,
Reduto de guerrilheiros
onde Ahôn vem dançar,
Muzenza...

Eeeeeee...

O negro no cativeiro,
Da terra mãe foi embora
Andou por aí sem paradeiro,
Lutou como luta até agora
Para ver se ainda encontra seu lugar
Foi deixado pelo mundo a fora
De fora, de fora...
É por isso que o negro chora
E chora...

É...

Mas o Muzenza não vai mais chora...
Muzenza...
Mas o Muzenza não vai mais chora...
Muzenza...
Mas o Muzenza não vai mais chora...
Muzenza...
Mas o Muzenza não vai mais chora...
Muzenza...

segunda-feira, 3 de março de 2008

um viva para netuno...

ontem voltei a surfar... desde novembro do ano passado não faço nada... andava bebendo muito e fumando exageradamente... engordei... na esperança de resgatar um pouco da saúde, passei a beber bastante vinho... tava na média de duas garrafas ao dia, meio maço de cigarro, entrava as noites buscando vidas perdidas que ao final eram sempre insuficientes, vazias, e eu cansado acabava largado no sofá (nunca na cama) e dormia como quem morre aos poucos...

mas ontem voltei a surfar... a exatos quinze dias tive uma gripe bastante forte, tive febre de 40 graus, por três dias seguidos... cortei imediatamente cigarro e bebidas, entrei de cabeça em vitaminas, antitérmicos e antibióticos... demorei cinco dias para me sentir em condições de sair da cama... fiquei bem mas sem forças... fui comprar pão na quarta feira da semana passada e ouvi um rapaz falar com o outro “entrou hoje um swell massa de manhã, mar liso e forte, séries demoradas mas perfeitas, cheguei a fazer cinco manobras na onda abrindo”... das outras dez vezes que ouvi conversas deste tipo, comprei uma cerveja e acendi um cigarro, que era pra tirar logo aquilo da cabeça... ainda meio sem forças, sabendo que eu sentiria algum efeito colateral com aquela decisão, acordei de manhã cedo e fui pegar onda...

a água estava quente... o mar um sonho... entrei e fiquei uma hora, mais ou menos... cai numa vala e tomei uma vaca fudida... engoli água, enjoei, tossi muito, vomitei... saí tonto... mas realizado... fui trabalhar... dormi cedo a noite, decidido a ir de novo no dia seguinte... já não estava tão despreparado, mas tive pouco equilíbrio para me manter na prancha, manobrar, o mar estava forte, não tava pra brincadeira... fiquei mais uma hora, fui trabalhar, e fiquei em casa sexta feira a noite... queria dormir cedo... dia seguinte eu entraria no mar mais cedo do que nunca...

sábado não acordei tão cedo... fui surfar 09 horas... o mas estava imenso, forte, paredões lisos de água abrindo com força, eu dropei despencando em algumas ondas, minha 6.1 parecia ter vontade própria, rasgava as ondas numa velocidade que eu mal conseguia enxergar ao redor, só me mantinha ali em cima da prancha... tomei as piores vacas desses três dias... se peguei três ondas foi muito... fiquei duas horas no mar... saí bastante queimado... fui dormir... o dia seguinte era domingo... eu queria surfar cedo ... mas era sábado a noite, queria sair, festa, balada... se eu entrasse no mar 09, 10 horas, estava tudo bem...

sábado a noite, decidi dormir cedo, foi meio sem querer, deitei as 09 vendo TV e apaguei... acordei 02 da manhã... voltei a dormir... acordei 04:30... o céu já estava lilás, anunciando o sol... levantei cinco e meia e fui pro mar... aqui começa o motivo deste relato... era 05:30 de domingo... já tinham vinte, trinta pessoas no mar... tinham ondas em todos os lados da praia, algumas grandes, outras menores e compridas, as no fundo formavam pequenos tubos... e lá nos arrecifes do barong, onde o crowd se amontoava, apareciam umas godzilla que cavavam a água numa velocidade e com uma força, que todos no mar eram indubitavelmente tragados, varridos e mastigados pela boca aberta do bicho... o mar rugia, estas ondas deviam ter seus 1,5 metros de altura, paredões formados de uns trinta metros totalmente abertos e cavados... poucos topavam dropar estas ondas... quando conseguiam era admirável... os rostos assustados com o lip acertando suas cabeças com força... foram vacas homéricas...

eu dropei uma dessas... assim que entrei no mar, ainda estava com a coragem da primeira vaca do dia... ainda sinto o susto da queda livre e a prancha completamente solta na água rasgando a onda... surfei muito... saí do mar 09:30... fiquei 4 horas seguidas... saí de cansaço e sede... cheguei em casa, comi e dormi... eu iria voltar a tarde...

foi quando soube que uma amiga minha viria a praia... fui encontrá-la, já com a prancha porque depois eu iria direto pro mar... encontrei com ela que estava com uma amiga e dois amigos... os cumprimentei e sentei, conversando sem pressa de ir ao mar, tinha acabado de almoçar... foi aí que percebi que todos bebiam, a cerveja estava gelada, o amigo delas fumava... todos sabiam que eu bebia, e me provocavam... eu não pensei um minuto sequer em dar nem um gole ou tragada... eu só mirava o mar e as ondas... ouvia as pessoas falando de suas vidas sem parar, e suas preocupações e anseios rondavam um universo tão superficial e ruidoso, uma espécie de prazer sem lastro, como se aqueles humores estivessem a deriva no meio daquele mar raivoso de vida que todos ali tentavam insistentemente entender mas passavam longe... e a cerveja não os ajudava muito a pensar... eles nem queriam...

senti falta do silêncio que o mar intensifica quando se faz parte dele... o silêncio de quem senta numa prancha e nada ouve além das ondas... ali estamos todos a deriva, mas amparados pela força de nossos braços que remam e nos carregam pela trajetória que queremos... passamos a fazer parte daquele todo imenso orgânico e vivo como mais um organismo vivo a lutar pela sobrevivência... o silêncio do mar passa a ser nosso silêncio... a força das ondas nossa força... o ritmo das águas nosso ritmo... eu, como muitos que certamente me entendem neste momento, sinto uma vontade sincera de ter a capacidade de respirar debaixo d’água... peço por ondas cada vez maiores, sempre com medo mas disposto a enfrentá-las... acreditando que cada uma delas, surfando-as ou não, me ensinam um pouco do limite e da minha capacidade de superá-las...

é incrível como este contato com o mar e as ondas pode mudar de forma radical a forma de enxergar a vida e seus ritmos... me sentia no meio daquele grupo como alguém de outro planeta, como numa realidade paralela... literalmente, um peixe fora dágua...

e eu realmente não sei quando vou acender um cigarro, ou tomar um gole de cerveja... eu apenas sei que o que estou sentindo hoje, sem a interferência de nenhuma substância externa, é uma das mais intensas e duradouras sensações de realização e prazer que já tive na vida... e que estarei todos os próximos vários e incontáveis dias no mar, nem que seja uma horinha, que é pra garantir a transformação mutante nem que seja por osmose...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

"amor longe de casa", italo calvino

"Assim é: as mulheres só tiveram informações falsas sobre o amor. Muitas informações diferentes, todas falsas. E experiências inexatas. No entanto, sempre confiantes nas informações, não nas experiências. Por isso tem tantas coisas falsas na cabeça.

- Eu gostaria, sabe, nós, as moças – diz. – Os homens: coisas lidas, coisas ditas entre nós no ouvido desde meninas. A gente aprende que aquilo é mais importante que tudo, a finalidade de tudo. Depois, sabe, percebo que nunca se alcança aquilo, aquilo de verdade. Não é mais importante que tudo. Eu gostaria que nada disso existisse, que agente pudesse não pensar nisso. Mas a gente sempre espera. Talvez seja preciso ser mãe para alcançar o verdadeiro significado de tudo. Ou prostituta.

- Sabe - disse Mariamirella -, talvez eu tenha medo de você. Mas não sei onde me refugiar. O horizonte é deserto, só tem você. Você é o urso e a gruta. Por isso estou agora enroscada em seus braços, para que você me proteja do medo de você.

É uma boa moça, Mariamirella; boa moça significa que compreende as coisas difíceis que digo e logo as torna fáceis. Gostaria de lhe dar um beijo, mas depois penso que, ao beijá-la, eu pensaria estar beijando o pensamento dela, ela pensaria ser beijada pelo pensamento de mim, e portanto não faço nada."

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O Tronco Velho I - O início do fim de uma vida...

lá fora tem uma árvore morta… um grande tronco de pele queimada, rosto enrugado, já sem cabelos, mantém a expressão triste de quem há muito não tem companhia... ao seu redor jaz uma piscina pequena em que as crianças não tomam banho, e uma casa vazia que o zelador só utiliza para guardar as coisas do seu trabalho...

atrás dele, como a rir da desgraça alheia, o coqueiro jovem se estica e balança a vasta cabeleira crespa verde... os ventos parecem estar do seu lado, assim como as luzes do sol, as flores no jardim ao seu redor... um homem agarra-se ao seu corpo e o escala, em busca da pura seiva que ainda flui e lhe garante a utilidade... a criança espera a água do coco, sorrindo e com sede, a mulher sai da cozinha só para assistir a proeza do marido... uma família reside na janela à sua sombra...

o grande tronco não faz mais sombra, não dá mais frutos, não possui mais utilidade nenhuma... as vezes chora, como todo mundo que sente saudades... sabe que está doente e que mais cedo ou mais tarde, como a divina regra do tempo que tudo consome e nunca falha, virá aquele mesmo homem serrar-lhe seus últimos segundos de vida, e quem sabe, se der sorte e não estivermos em tempos de festas de são joão, ser aproveitado como mesa, tamborete, peso de porta...

eu conheço esse tronco a um ano, quando me mudei para este apartamento... nunca lhe dei importância, velho e roto, descamado como um velho porco e sem cuidados, acometido de uma dermatite contagiosa... nunca pude olhar para o horizonte pela minha janela sem antes mirar esse tronco sem vida a um metro de meu rosto... assim como o coqueiro, nunca quis enxerga-lo, sem a mínima utilidade, sonhei neste são joão com ele numa bela fogueira, a sumir nas cinzas...

há um ano morando neste apartamento, já acordei diversas vezes com um baque oco na janela do meu quarto... um baque repetitivo, insistente, intenso e raivoso, como a pedir minha atenção... sempre que chego a janela, não encontro a origem do ruído...

num belo dia de ressaca, acordei ao meio dia, com aquela pancada na janela, corri em agonia, como o fizera nas tantas outras vezes, e vi o que era... um pássaro bicava minha janela com força, não sei se no intuito de entrar ou de me convocar para algo... fiquei assistindo a ave, que certamente não podia enxergar-me devido ao revestimento que escurecia o vidro da janela... cansada de tanto bater na janela, ela voou irritada e dirigiu-se aos braços do velho tronco... do interior daquele tronco dois outros pássaros surgiram, e um deles veio a minha janela, repetindo as pancadas intensas, como a gritar uma mensagem comovente, raivosa e revoltada, em um código morse cósmico... ficou vinte segundos, voltou ao tronco e seguiu sua vida... eu abri a janela de uma vez e encarei o tronco e os pássaros... eles não me disseram nada... mas eu queria que sua mensagem fosse esta...

“abra esta janela... este lugar não é seu... quero construir um ninho aí dentro, onde a chuva não entra e o sol não castiga... exatamente onde está sua casa, no passado estiveram outras árvores, e foram todas derrubadas, à exceção desta, que de raízes mais fortes e resistentes, não morreu... hoje você mora sobre os restos de outras árvores, como a que meus pais alojaram o ninho onde nasci... e a única coisa que me resta é este tronco resistente, forte, já bastante desgastado, que você insiste em derrubar, apenas porque torna feia a paisagem... humano idiota...”

daquele dia em diante, os pássaros foram parando de bicar minha janela, mas não tenho fotos disso, nunca pensei nisso... mas tenho testemunhas, meus irmãos um dia viram... era de enlouquecer, era intenso e bonito ao mesmo tempo, e todos que ouviram eram unânimes e concordavam, "estes pássaros tem raiva, eles querem arrombar esta janela"... "rapaz, ainda vai quebrar seu vidro, abre esta porra"... eu pensava, "e se abrir o vidro, ele vai fazer um ninho aqui dentro"...

passei a prestar atenção e percebi que existem vários ninhos no tronco... mas independente da quantidade, eles realmente nunca mais voltaram a bicar minha janela... hoje resolvi publicar algumas imagens do tronco e dos pássaros no tronco... irei a partir de agora registrar a vida deste tronco velho gagá roto esfarrapado e aparentemente sem vida...

e este desejo de registrar a vida deste tronco nasceu daquelas aves que insistiam em riscar a janela de meu quarto com suas bicadas... pois a partir daquele momento, passei a sentir uma comoção muito grande todas as vezes que olho minha janela e o velho tronco, sinto-me triste... enxergo nele a minha própria arrogância, meus preconceitos idiotas, a parte ruim de minha humanidade, que enxerga apenas um palmo diante do nariz e já encontra motivos suficientes para destruir o mundo em prol de seus interesses mesquinhos de merda...

passei a conversar com o tronco e a fotografá-lo, falo de minhas dificuldades, meus medos, minhas frustrações, digo como o odiei e como o admiro hoje, pois o reconheço como um grande ouvido que está sempre atento, um companheiro que me enxerga sempre, como me enxerga agora neste exato momento...

e, por mais insano que pareça, juro que sou capaz de ouvir seu comando sábio entre uma pose e outra para as fotos... “vão lá pássaros, ele precisa ver e ouvir vocês para entender quem eu sou, o que represento e voltar a ter esperança na humanidade...”

sábado, 7 de julho de 2007

a quem voce chama de ruim? àquele que quer sempre envergonhar

e é exatamente ao som de something, de ressaca física e moral, porque a noite foi de fuder mas eu sempre acabo sendo muito mais escroto do que pretendia, que eu pego um livro na estante, justamente aquele que supostamente não teria nada a me dizer, justamente aquele que eu ganhei de um idiota do meu antigo trabalho num amigo secreto, com ele tentando me passar uma lição de moral, tentando me envergonhar com uma gracinha de menino adolescente que ainda não sabe exatamente como se joga o jogo dos homens...

o titulo do livro: “Napoleão: Como fazer a guerra – Máximas e pensamentos de Napoleão recolhidos por Honoré de Balzac”...

“Quando levaram Luís XVI a julgamento, ele devia simplesmente dizer que segundo as leis sua pessoa era sagrada, e nada mais. Isso não lhe teria salvo a vida, mas ele teria morrido como rei.”
assistam comigo esse filme: os revolucionários franceses em pleno julgamento apresentando todos os motivos mais convincentes para justificar decapitar o rei... e o rei da frança dizendo assim, chorando, assustado, “não me matem, eu não tenho culpa de terem me colocado lá como rei, não fui eu que criei a monarquia, nunca quis ser rei”... e as pessoas que sempre o viram como símbolo de força, austeridade, bravura, ali ao seu redor olhando a cena, totalmente decepcionados com a covardia, com o medo daquele senhor... que perdera completamente seu reinado... agora imagina esse mesmo senhor, nessa mesma situação, calado o tempo inteiro, olhar frio e rígido a mirar os olhos de cada uma daquelas pessoas com toda sua raiva e força... ao ser perguntado se tinha alguma coisa a dizer... “Eu sou Deus na terra. Como vocês ousam me enfrentar?”...

“Um príncipe acusado por seus súditos não lhes deve nenhuma justificativa.”
nunca... as justificativas podem ser dadas caso o príncipe queira... por uma questão de gentileza... e se elas forem pedidas, inicie uma investigação para levantar as razões e interesses por trás do pedido, pois quase sempre existe ali uma tentativa de reverter a polarização do poder... existe ali alguém querendo fazer o que quer e buscando suas razões para que se tornem as razões dele...

“Os que se vingam por princípios são ferozes e implacáveis.”

“Jamais haverá revolução social sem terror.”
como mudar a sociedade atual sem uma grande guerra armada interclasses?

“Aquele que pratica a virtude apenas na esperança de adquirir um grande renome está muito próximo do vício.”
dos aforismos que merecem uma compreensão cuidadosa.. quem tem atitudes louváveis apenas pensando em ser louvado, possui estas atitudes não pelo que elas tem de significado pessoal, de resultado de sua própria história... a balança que utiliza para equilibrar sua bondade é dos outros... naturalmente, pois os outros sempre pensarão por eles mesmos, pois só quem sabe suas razões é você, a balança pende para um lado mais que para o outro... e para equilibrar mais e mais atitudes louváveis pensando em ser louvado são tomadas... cada vez mais... e quanto mais atitudes louváveis, e mais reconhecimento, maior o desequilíbrio da balança, pois maior a distância destas atitudes de um significado pessoal, interno, profundo... e o que falar dos vícios? não seriam eles a tentativa desesperada de quem não agüenta a responsabilidade de ter nas mãos a própria balança?

“O homem só deixa marca na vida ao dominar seu caráter ou ao fazer-se um.”
Para comentar este aqui, eu trouxe Nietzsche, “Deves tornar-te senhor de ti mesmo, senhor também de tuas próprias virtudes. Antes elas eram teus senhores; mas devem ser apenas teus instrumentos junto com outros instrumentos. Deves adquirir poder sobre o teu pró e o teu contra, e aprender a desatá-los e a liga-los de novo, segundo teu objetivo mais alto.(...) é preciso ter poder sobre a própria vida, o que se prova proibindo-se também alguma coisa. (...) ou se é escravo da vida ou senhor dela, o que só consegue quem renuncia aos bens da vida.”

“O homem superior não está no caminho de ninguém.”
Toca Rauuuuulllll: Não sei onde eu to indo só sei que estou no meu caminho...

“O homem superior é impassível: enaltecido ou reprovado, segue sempre.”
Toca Rauuuuulllll:Enquanto vc me critica eu to no meu caminho...

“Um homem sem coragem nem bravura é uma coisa.”
ESPARTA!!!!

“Habituar-se aos fatos mais violentos consome menos o coração que as abstrações: os militares valem mais que os advogados.”
nunca pensei que fosse admirar tanto os militares...

“As pessoas só acreditam no que é agradável acreditar.”
preciso pensar melhor nesta frase... não ousarei me destacar deste plural ‘as pessoas’ antes de refletir muito se todas as minhas crenças são ou não são de alguma forma realmente agradáveis para mim... parece desta maneira, uma verdade bem incomoda esta...

“Só se faz bem o que a gente mesmo faz.”
A velha máxima de paulo freire é magnífica... pois por mais que possa ser óbvio... o óbvio sempre, always, everytime, precisa ser dito...

“Discutir no perigo é apertar a corda em volta do pescoço.”

“Nada se fundou sem a espada.”
Isso me lembra a conversa entre pai e filho no início de Conan, O Bárbaro.

“Um povo só é conduzido quando lhe mostram um futuro: um chefe é mercador de esperança.”
eu acredito nisso...

Moral da história: meses depois, encontrei com o cara no carnaval, esse que me deu o livro... eu estava bêbado, muito bêbado, e nessas horas eu sempre fico muito amável e sorridente e pacífico... sou um cara tranqüilo que não gosta de brigas... sei que entre adultos civilizados as coisas precisam ser resolvidas na base do diálogo e da paciência, é preciso aprender com a diversidade... o cara passou com um abadá do nana banana, era o quinto ou sexto de uma fila de rapazes que buscam uma medalha de honra ao mérito “beijei várias no carnaval”... no auge de minha bebedeira, eu só fiz bater no peito dele com bastante força como quem encontra um velho amigo mas sabe que está machucando com aquela brincadeira, bati no peito dele umas duas três vezes e dei uma puxadinha de leve na camisa do abada... para ele ver quem estava batendo e chamando ele... ele me viu e se assustou, claro, não esperava me ver ali... eu aproximei meu rosto dele encarando ele de forma bastante intimidadora, pois você não precisa saber brigar para dar e tomar uns sopapos, você não precisa ser mestre das artes marciais para derrubar um brutamontes super malhado... a gente aprende isso nos ringues da viril estupidez masculina... o segredo de uma luta está em acionar o botão da raiva... aprender a acionar o botão da raiva... até porque quem sabe ligar aprende justamente porque fica mestre em saber desligar... aproximei meu rosto encarando o cara sem a mínima idéia de que imagem eu poderia naquele momento estar representando... pois a única coisa que eu emanava naquele momento era raiva... com ele ali congelado, parado, assustado, e os colegas dele esperando por ele, assistindo tudo, eu disse: “abre o olho rapaz, presta atenção viu, abre teu olho”... e dei uma risada sarcástica, encarando com a mesma raiva todos os seus amigos, virando de costas e indo embora... depois desse dia ele nunca mais se dirigiu a mim... e deve ter aprendido também que dar um livro a alguém sem o ter lido é sinal de preguiça e vaidade... além de muita burrice... hehehe...