segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

"amor longe de casa", italo calvino

"Assim é: as mulheres só tiveram informações falsas sobre o amor. Muitas informações diferentes, todas falsas. E experiências inexatas. No entanto, sempre confiantes nas informações, não nas experiências. Por isso tem tantas coisas falsas na cabeça.

- Eu gostaria, sabe, nós, as moças – diz. – Os homens: coisas lidas, coisas ditas entre nós no ouvido desde meninas. A gente aprende que aquilo é mais importante que tudo, a finalidade de tudo. Depois, sabe, percebo que nunca se alcança aquilo, aquilo de verdade. Não é mais importante que tudo. Eu gostaria que nada disso existisse, que agente pudesse não pensar nisso. Mas a gente sempre espera. Talvez seja preciso ser mãe para alcançar o verdadeiro significado de tudo. Ou prostituta.

- Sabe - disse Mariamirella -, talvez eu tenha medo de você. Mas não sei onde me refugiar. O horizonte é deserto, só tem você. Você é o urso e a gruta. Por isso estou agora enroscada em seus braços, para que você me proteja do medo de você.

É uma boa moça, Mariamirella; boa moça significa que compreende as coisas difíceis que digo e logo as torna fáceis. Gostaria de lhe dar um beijo, mas depois penso que, ao beijá-la, eu pensaria estar beijando o pensamento dela, ela pensaria ser beijada pelo pensamento de mim, e portanto não faço nada."

Um comentário:

MMBlog disse...

Não sei quando o Italo Calvino escreveu este texto, mas agradeço por 'hoje' teres identificado a sua relevância e partilhado conosco, já que não resta dúvida do quanto ele é atual. Para além disso, no contexto da minha vida ele tem todo o sentido não apenas no plano semântico :))

Beijos
Mariana