segunda-feira, 9 de julho de 2007

O Tronco Velho I - O início do fim de uma vida...

lá fora tem uma árvore morta… um grande tronco de pele queimada, rosto enrugado, já sem cabelos, mantém a expressão triste de quem há muito não tem companhia... ao seu redor jaz uma piscina pequena em que as crianças não tomam banho, e uma casa vazia que o zelador só utiliza para guardar as coisas do seu trabalho...

atrás dele, como a rir da desgraça alheia, o coqueiro jovem se estica e balança a vasta cabeleira crespa verde... os ventos parecem estar do seu lado, assim como as luzes do sol, as flores no jardim ao seu redor... um homem agarra-se ao seu corpo e o escala, em busca da pura seiva que ainda flui e lhe garante a utilidade... a criança espera a água do coco, sorrindo e com sede, a mulher sai da cozinha só para assistir a proeza do marido... uma família reside na janela à sua sombra...

o grande tronco não faz mais sombra, não dá mais frutos, não possui mais utilidade nenhuma... as vezes chora, como todo mundo que sente saudades... sabe que está doente e que mais cedo ou mais tarde, como a divina regra do tempo que tudo consome e nunca falha, virá aquele mesmo homem serrar-lhe seus últimos segundos de vida, e quem sabe, se der sorte e não estivermos em tempos de festas de são joão, ser aproveitado como mesa, tamborete, peso de porta...

eu conheço esse tronco a um ano, quando me mudei para este apartamento... nunca lhe dei importância, velho e roto, descamado como um velho porco e sem cuidados, acometido de uma dermatite contagiosa... nunca pude olhar para o horizonte pela minha janela sem antes mirar esse tronco sem vida a um metro de meu rosto... assim como o coqueiro, nunca quis enxerga-lo, sem a mínima utilidade, sonhei neste são joão com ele numa bela fogueira, a sumir nas cinzas...

há um ano morando neste apartamento, já acordei diversas vezes com um baque oco na janela do meu quarto... um baque repetitivo, insistente, intenso e raivoso, como a pedir minha atenção... sempre que chego a janela, não encontro a origem do ruído...

num belo dia de ressaca, acordei ao meio dia, com aquela pancada na janela, corri em agonia, como o fizera nas tantas outras vezes, e vi o que era... um pássaro bicava minha janela com força, não sei se no intuito de entrar ou de me convocar para algo... fiquei assistindo a ave, que certamente não podia enxergar-me devido ao revestimento que escurecia o vidro da janela... cansada de tanto bater na janela, ela voou irritada e dirigiu-se aos braços do velho tronco... do interior daquele tronco dois outros pássaros surgiram, e um deles veio a minha janela, repetindo as pancadas intensas, como a gritar uma mensagem comovente, raivosa e revoltada, em um código morse cósmico... ficou vinte segundos, voltou ao tronco e seguiu sua vida... eu abri a janela de uma vez e encarei o tronco e os pássaros... eles não me disseram nada... mas eu queria que sua mensagem fosse esta...

“abra esta janela... este lugar não é seu... quero construir um ninho aí dentro, onde a chuva não entra e o sol não castiga... exatamente onde está sua casa, no passado estiveram outras árvores, e foram todas derrubadas, à exceção desta, que de raízes mais fortes e resistentes, não morreu... hoje você mora sobre os restos de outras árvores, como a que meus pais alojaram o ninho onde nasci... e a única coisa que me resta é este tronco resistente, forte, já bastante desgastado, que você insiste em derrubar, apenas porque torna feia a paisagem... humano idiota...”

daquele dia em diante, os pássaros foram parando de bicar minha janela, mas não tenho fotos disso, nunca pensei nisso... mas tenho testemunhas, meus irmãos um dia viram... era de enlouquecer, era intenso e bonito ao mesmo tempo, e todos que ouviram eram unânimes e concordavam, "estes pássaros tem raiva, eles querem arrombar esta janela"... "rapaz, ainda vai quebrar seu vidro, abre esta porra"... eu pensava, "e se abrir o vidro, ele vai fazer um ninho aqui dentro"...

passei a prestar atenção e percebi que existem vários ninhos no tronco... mas independente da quantidade, eles realmente nunca mais voltaram a bicar minha janela... hoje resolvi publicar algumas imagens do tronco e dos pássaros no tronco... irei a partir de agora registrar a vida deste tronco velho gagá roto esfarrapado e aparentemente sem vida...

e este desejo de registrar a vida deste tronco nasceu daquelas aves que insistiam em riscar a janela de meu quarto com suas bicadas... pois a partir daquele momento, passei a sentir uma comoção muito grande todas as vezes que olho minha janela e o velho tronco, sinto-me triste... enxergo nele a minha própria arrogância, meus preconceitos idiotas, a parte ruim de minha humanidade, que enxerga apenas um palmo diante do nariz e já encontra motivos suficientes para destruir o mundo em prol de seus interesses mesquinhos de merda...

passei a conversar com o tronco e a fotografá-lo, falo de minhas dificuldades, meus medos, minhas frustrações, digo como o odiei e como o admiro hoje, pois o reconheço como um grande ouvido que está sempre atento, um companheiro que me enxerga sempre, como me enxerga agora neste exato momento...

e, por mais insano que pareça, juro que sou capaz de ouvir seu comando sábio entre uma pose e outra para as fotos... “vão lá pássaros, ele precisa ver e ouvir vocês para entender quem eu sou, o que represento e voltar a ter esperança na humanidade...”

7 comentários:

Tati disse...

Só não vale deixar derrubarem.

Felipe disse...

Você deveria capitanear o resgate ecológico do tal tronco. Tratá-lo, adubá-lo, cuidar dele pra ver se ele volta a se pujante e a aoferecer sombra aos pássaros. Qeum sabe, depois disso, os tais inquilinos passam a cantar de manhã para acordá-lo, em vez de baterem na sua janela.

KK disse...

Se fosse eu já tinha chamado algum biólogo pra fazer uma avaliação pra ver se ele tem salvação. Se tiver, o que fazer? Se não tiver, defesa civil nele!

Rebeca Ribeiro disse...

Nossa! Há um tempo não tinha tempo de comentar no seu blog, meu caro... Mas esse post me deu até arrepios! Ficou muito emocionante! Adorei! E como sempre, muitas reticencias... (risos!)
Abraços!

Rebeca Ribeiro disse...

Nossa! Há um tempo não tinha tempo de comentar no seu blog, meu caro... Mas esse post me deu até arrepios! Ficou muito emocionante! Adorei! E como sempre, muitas reticencias... (risos!)
Abraços!

Anônimo disse...

Gostei do contraponto entre o tronco e o coqueiro, contudo, olhando para as fotos, devo dizer que o caráter retilíneo e altivo do primeiro me parecem revelar a persistência de quem não se curva às intemperes da vida ou do tempo. Desse modo, a dignidade pode ser percebida onde, à primeira vista, emergem a solidão e a decreptude. Parabéns, seu texto é muito forte!

Anônimo disse...

Serei solidário contigo, posto que iria escrever sobre o meu tronco, visto ainda ha pouco na estrada a uns cem kilômetros de um ugar qualquer. Deixava-se deitar sobre a relva alta do morro e de lá quase não se importava comigo. Embora a velocidade fosse imcompatível, pude agora refletir sobre ele e notar que há muito em comum ao que descreveu. A inércia a que estão subjugados torna-os referências às quais sem querer necessitamos.

Parabéns.